Ao abrir o jornal, ligar a TV ou acessar a internet, vemos uma diversidade de matérias exaltando grupos de migrantes. Elas ressaltam a história do país de origem dessas pessoas ou a cultura, sempre em tom festivo. Há até um bairro que foi maquiado para parecer que sempre foi oriental, mas nem todos os grupos são tratados assim. 

A colônia boliviana de São Paulo, por exemplo, muitas vezes é associada à degradação dos bairros, à pobreza ou à ilegalidade. Claro que essas pessoas sofrem, realmente, com uma série de problemas e todo tipo de explorações, mas é visível o descaso de setores da mídia e mesmo da prefeitura. 

Em 2002, os trabalhadores bolivianos criaram a feira da Kantuta, a qual recebe um fluxo significativo de visitantes e realiza festas e eventos. Mais recentemente, eles ocuparam também o Memorial da América Latina, mas ainda falta muito. A região da feira não recebe a mesma atenção que outros locais da cidade, apesar de ser reconhecida como patrimônio imaterial. 

A imprensa raramente menciona as festas da comunidade boliviana, mas lembra dela quando o assunto é a poluição visual do Brás, a opressão aos ambulantes e a ilegalidade. Claro que esses sujeitos não começaram a vir no século XIX, mas não custa lembrar que aqueles que usam de argumentos racistas e xenófobos para falar dos bolivianos têm avós, pais ou bisavós que chegaram em situações "semelhantes" e receberam todo tipo de acusações e violências. Os haitianos e senegaleses sofrem com o mesmo olhar elitista, mas a situação desses sujeitos renderia, por si só, uma outra coluna. 

Os trabalhadores bolivianos começaram a chegar em São Paulo na década de 1970. Esse processo se deveu ao crescimento populacional do seu país a partir dos anos 1950 e começou com o deslocamento da população rural para as capitais (em especial Santa Cruz de la Sierra) e depois para os países vizinhos. Esses sujeitos continuam chegando e acabam trabalhando com aquilo que lhes é possível. 

Mas retornando à imagem imposta a esses trabalhadores, devemos lembrar da questão da classe. Outros grupos contam com descendentes na elite e, inclusive, nos espaços de poder. Como afluxos recentes, bolivianos, haitianos e senegaleses ainda estão se consolidando. A questão racial é igualmente importante, pois esses grupos possuem uma origem indígena e negra, o que não atende à estética racista da classe média, da elite e de parte da mídia paulistana.

Não adianta falar da diversidade paulistana excluindo parte da sua população. A comunidade boliviana é explorada, discriminada e silenciada. Nem todos que chegam vêm nas condições acima descritas, mas é necessário e urgente falar dos bolivianos, ainda mais em tempos de tanto ódio. 

Autoria
Roger Camacho - Doutor em História pela UFRGS, mestre pela UNIFESP. Professor na rede pública estadual e interessado em temas como gênero, Trajetórias de vida, branquitudes, memória e patrimônio.
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